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24 de setembro de 2017

Category: Livre – Não Publicado

18 de maio de 2014

Um presente

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Daqui a oito dias é a festa de Manfredo, dizia Ida para a sua mãe. Não sei o que lhe dar: veja mamãe, você deveria me comprar um bom brinquedinho do seu gosto: assim, o presentearei e o farei contente.

Neste caso, minha filha, o presente seria meu e não seu.

Isso também é verdade. Mas se não tenho nada que possa agradá-lo!

Vejamos: tem um bonito vaso de violetas…

– As violetas! O que você acha? De onde eu pegaria as flores para te fazer os ramalhetes? Daquele meu vaso, não posso me desfazer.

um presente

Você tem o passarinho!

Oh mamãe! O passarinho? Um passarinho tão bem amestrado, que me segue por toda a parte!

E as rolinhas?

Também elas. Sabe muito bem, que as tenho por assim dizer, sob meus cuidados, desde que saíram do ovo. As chamo de minhas filhas.

Então, não tem mesmo nada para dar ao pobre Manfredo.

Para o seu aniversário… sim! Eu teria…

O quê?

Você se lembra daquela bela bolsa de seda vermelha perfurada que a tia me deu há um ano, como herança? É uma bolsa grande e bonita!

É verdade. Mas o quê que o seu irmãozinho vai fazer com ela? Ele não tem dinheiro, nem mesmo poderia usá-la. Você mesma, apenas a ganhou, correu imediatamente a colocá-la no fundo da cômoda..

Desculpe mamãe, mas a bolsa seria um bom presentinho!

Não, filha: um presente, desejando que seja bom precisa agradar a nós e dar prazer a quem o recebe.

Então, você quer dizer, que eu deveria presentear ao Manfredo todas as coisas que me

são caras!

Todas, não. Uma só bastaria!

A Ida reflete um momento e diz:

Quando chegar o momento, colherei para a festa de Manfredo, as mais belas florezinhas da minha planta e lhe darei o passarinho.

Excelente menina! Dizia a mim mesma que a minha Ida tem um bom coração!

Espera: começando a partir de hoje, quero que o passarinho se habitue a voar sobre os ombros de Manfredo: assim ele se afeiçoará, e quando eu lhe der o passarinho gostará mais dele.

Dê-me um beijo, minha filhinha amorosa. Esta atenção gentil duplica o valor do teu presente. Veja querida: é o coração aquele que torna precioso o presente mais humilde. Asseguro-te que não poderia dar um presente mais bonito para Manfredo e para mim.

Eu também estou feliz, disse a menina.

E ficará ainda mais no dia da festa, diz a senhora Maria: tenho a intenção de fazer uma merendinha para Manfredo e convidar todos os seus amigos. Você, se quiser, fará as honras, e te comportarás como uma mocinha zelosa e comportada que sempre tem sido. Você gostaria?

A Ida deu um beijo na mãe e correu para o seu quarto para dar uma semente ao passarinho.

Extraordinária! Nunca me pareceu tão encantadora!

Texto original: Una donnina, extraído da obra de Ida Baccini – Lezioni e Racconti per Bambini – 1882

Tradução: Beatriz Pagliaro

N.T.: Texto não revisado.

18 de maio de 2014

O boi

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Attilio está para completar 7 anos, e a vê-lo todo sensato e arrumado, lhe daria pelo menos 10. Tem quase a aparência de um homenzinho. A sua paixão, quando termina as tarefas da escola, é de olhar os livros com as figuras. Às vezes, a mamãe lhe empresta um livrão grande, grande, onde estão desenhados todos os animais, todas as plantas e todas as pedras que se encontram sobre a terra. O papai disse que aquele livrão é intitulado “História Natural”, mas o menino não se confunde com os títulos, e passa horas a olhar ora um belo pássaro de cauda longa, longa ora alguma árvore de folhas gigantescas, ora certas pedras de formas curiosas, que surgem do interior de uma gruta ou rolam do cume de um monte.

Porém, um dia, o nosso Attilio voltou para casa chorando e soluçando: um menino mau, um daqueles meninos mal educados que vão para as escolas sem tirar qualquer proveito, tinha lhe chamado de boi. Aquela palavra – Boi – dita em voz alta, de modo ofensivo, causou um grande efeito sobre o ânimo de Attilio: parecia-lhe que não poderia ser tratado pior, mesmo se se passassem cem anos.

– Boi! Boi! Mas eu não vejo um grande mal nesta palavra, disse o pai rindo. É o nome de um animal respeitável e utilíssimo, do qual não sei como poderíamos desprezá-lo.

Attilio esbugalhava os seus belos olhos azuis e olhava o pai com aquele ar de interrogação.

– Tenho certeza, assegurou o pai. E estendeu o braço sobre a mesa do escritório e pegou o

“Jornal das Crianças” onde havia o desenho de um belo boi. – Olhe você mesmo, disse ao menino.

boi

Attilio se pôs a examinar o animal.

Tem quatro pernas, disse de imediato.

E o que mais?

Tem dois chifres sobre a cabeça.

E o que mais?

E também a cauda.

E o que mais?

E também um grande focinho comprido, comprido!

E o que mais?

Uma orelha e um olho.

Tem duas orelhas e dois olhos, como temos você e eu: mas como a outra orelha e o outro olho ficam na parte de lá, nós não podemos vê-los. Olhe-me, disse o pai, colocando-se de perfil.

É verdade, disse Attilio. E depois de um breve silêncio, retoma: Disse que o boi é um animal utilíssimo. Por que? Para que serve?

Diga-me uma coisa, meu filho: nunca te aconteceu quando você foi ao campo, de ver um par de bois, atrelados a uma carroça, com uma espécie de grande bastão preso ao pescoço?

Vi várias vezes, e sei que aquela espécie de bastão se chama junta de bois, canga.

Então, aqueles bois iam ou voltavam do campo. O boi é a ajuda principal do camponês, porque através dele se trabalha a terra, transposta na carroça os adubos, as encomendas, as pedras, o feno e outras tantas coisas. O boi é robustíssimo e pode suportar, sem sofrimento, os trabalhos mais extenuantes.

E este outro animal, que é quase igual ao boi, como se chama?

Chama-se vaca e é a sua fêmea. Veja, enquanto o boi tem o pelo luzidio e branco, as vacas, por outro lado, podem ser vermelhas, pretas, marrons, brancas, e também de todas essas cores juntas.

O que comem os bois e as vacas?

Comem a grama, o feno e também a palha. Depois que comem, ruminam.

Não entendo, disse Attilio. O que quer dizer ruminar?

Assim, eu gosto, respondeu o pai, fazendo um carinho em seu filhinho. Eu gostaria que todas as crianças, quando leem uma palavra difícil, da qual não conseguem entender o significado, pedissem logo a sua explicação. Deste modo se evitaria acumular dúvida sobre dúvida e ignorância sobre ignorância. Mas voltando a palavraruminar, te direi que significa o fazer retornar para a boca a comida que havia sido enviada para o estômago para terminar de mastigar.

– Incrível! disse o menino estupefato. Diga-me, papai, nós também ruminamos?

Não, caro. Os únicos seres que ruminam são os animais que tem, como esta vaca e este boi, o pé fendido, e uma única fila de dentes. Deles se diz que pertencem aos ruminantes. Voltemos agora, se você quiser, para a utilidade que estes dois animais tem para nós.

A vaca da cria aos bezerros, os quais nos servem como alimento ou são criados pelos agricultores para que se tornem novilhos, touros e bois.

É verdade que o leite é a vaca que nos dá?

É verdade; e é um leite nutritivo, leve, saboroso. Mas o leite também nos dão as fêmeas de outros animais, como a cabra, a burra e a ovelha. Com a nata do leite batido com certa maestria, em grandes recipientes de madeira, chamados de batedeiras de manteiga, se faz a manteiga, que comemos tantas vezes com o pão, e é um condimento bem gostoso e delicado.

Mas a utilidade destes pobres animais não acaba com a morte deles: a carne do boi é um dos nossos mais substanciosos alimentos diários: da sua pele curtida se faz o couro, aquele couro que os sapateiros usam para fazer os sapatos e botas A pele dos bezerros serve também para fazer, cabedal, assopradores de lenha, cintos e arreios para cavalos. Os ossos e os chifres dos bois são trabalhados pelos torneadores, pelos fabricantes de pentes: e com as cartilagens, os tendões e as raspas de suas peles, se faz a cola dos carpinteiros. Até o pelo da boca deles é útil: este serve para rechear as almofadas para selas e os cabrestos.

– Portanto, ser chamado de boi não é nenhuma ofensa! Entendo que é um animal tão bom! Eu não poderia, nem mesmo se vivesse cem anos, fazer um só das tantas coisas das quais é capaz um boi. Eu não tenho a sua força, nem….

– Meu filho, a comparação não tem fundamento. O homem não pode e nem deve ser comparado com o animal. Ele tem a inteligência, a razão e também a escolha entre o que é bom e o que é mal. O homem não poderia, é verdade, submeter-se as fadigas do boi; mas com a força de sua vontade e do seu gênio, torna férteis as terras inferiores ou habitáveis, atravessa o oceano em frágeis barcos, derruba e perfura os montes, conta as estrelas do firmamento e inventa máquinas poderosas.

Portanto, aquele menino errou ao te chamar de boi, primeiro porque tinha a intenção de te aborrecer, e também porque não há nenhum ponto de comparação entre um pobre animal, cujos olhos estão sempre condenados a olhar para a terra, e o homem que pode e deve elevá-los ao céu, e do céu para Deus. Mas você deve desculpar aquele menino e provar-lhe, perdoando-o, que você não é um boi.

Texto original: Una donnina, extraído da obra de Ida Baccini – Lezioni e Racconti per Bambini – 1882

Tradução: Beatriz Pagliaro

N.T.: Texto não revisado.

17 de maio de 2014

Uma Mocinha

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A Eduvige era uma menina realmente desconcertante. Querer um bem enorme a mãe e vê-la lá, de cama, com uma tosse obstinada que não lhe dava paz nem de dia e nem de noite, era um grande sofrimento. Se ao menos pudesse ser útil em alguma coisa e ajudar o papai! Mas em que coisa, uma menininha de oito ou nove anos, poderia ser capaz?
Havia tantos afazeres naquela casa! O papai ia para o escritório de manhã as dez e retornava as cinco. É verdade que antes de ir, colocava a carne no fogo, fazia uma pequena limpeza na casa e cuidava da doente, mas a noitinha precisaria encontrar tudo em ordem. E então deveria refazer uma parte: reatiçar o fogo, ferver o molho, por a sopa e desembaraçar-se de todas aquelas tarefas, as quais não se dava importância no dia a dia, mas que levavam embora todo o tempo! A Eduvige se inventava, pobrezinha. Quando ia ao quarto da mãe, arrumava o lençol, lhe dava uma colherada ou acomodava os vidros dos remédios sobre o criado-mudo. Mas era preciso mais! Necessitava contratar uma jovem para o serviço, não havia remédio. E esta nova despesa causava uma grande preocupação ao pai, cujos ganhos eram suficientes apenas para manter a esposa e a filhinha.
Uma noite, após o jantar, o senhor Ernesto, assim se chamava o pai de Eduvige, precisou sair e ficar uma hora fora. A enferma estava repousando e a nossa menina não sabia como passar o tempo. Já havia se cansado dos fantoches e das bonecas, desde que a mãe estava acamada, tarefas preparadas não havia e o Livro da Menina ficava trancado no escritório do pai.
Arrastava-se daqui para lá e de lá para cá, e entrou na cozinha: Deus, que bagunça! Não parecia mais a cozinha de antes, quando a mãe arrumava tudo depois das refeições, varria, tirava o pó, semicerrava as janelas para que não entrasse o sol.
Sobre o fogão à lenha havia um pouco de tudo: panelas, tigelas, frascos, farelos de pão, uma caixa de cera de sapato e até um guardanapo todo sujo de gordura e de café; a mesinha, as cadeiras estavam cobertas de fuligem; na botija duas moscas se ocupavam.
Eduvige pensou imediatamente na mãe e tomou uma grande decisão; se ela tentasse um pouco a colocar em ordem naquela bagunça e fizesse com o que o pai economizasse a despesa com a empregada?
Talvez conseguisse, talvez não, mas de qualquer modo, tentar não custava nada, pelo contrário, se ganhava sempre alguma coisa, nem que fosse a prática.
Eduvige começou a encher o caldeirãozinho d’água e o colocou sobre o fogão, onde sempre havia o fogo aceso, então separou os pratos grandes dos pequenos e as marmitas, dividindo-os em três grupos distintos; limpou a lareira, sacudiu as cadeiras, limpou o escorredor de pratos, e enquanto a água terminava de se esquentar, enxaguou os copos, chávenas e os colocou com a água já escorrida, sobre uma bandeja de aço, que a mãe tinha para aquele uso, sobre o balcão. Então, uma peça de cada vez, lavou os talheres, os enxugou e os guardou.
Quando a água começou a ferver, derramou-a pouco a pouco na tina, e começou a lavar os pratos menos engordurados até chegar às panelas e marmitas.

uma mocinha E quando tudo ficou limpo, enxaguado e polido, Eduvige pôs mais dois pedaços de carvão no forno, cobriu o fogo com uma pazinha de cinzas, para que não se consumisse demais, e semicerrou a janela. Depois foi se lavar, vestiu um bonito avental branco e esperou o pai com certa impaciência.
Quando voltou, a mãe estava acordando e pedia para beber água.
O senhor Ernesto correu até a cozinha para pegar uma botija de água fresca, e a menina atrás. Vendo tudo em ordem e limpo, se voltou atônito a Eduvige e perguntou:
– Quem esteve aqui?
– Ninguém! – respondeu a menina sorrindo.
– Quem fez as tarefas?
A Eduvige pulou no pescoço do pai e lhe disse em uma orelha:
– Fui eu!
Imaginem a alegria daquele pobre homem! Manteve a sua menina abraçada e foi feliz com aquele peso querido, ao quarto da esposa para quem contou tudo.
A mãe comovida a fez sentar-se sobre a cama a Eduvige e a cobriu de carinhos.
A nossa amiga tinha experimentado alguns bons momentos em sua vida, especialmente quando os tios de Roma lhe mandavam presentear um bom livro, um vestido novo ou uma caixa de doces. Mas um momento como aquele não tinha experimentado mais; nunca, nem mesmo quando da entrega dos prêmios o prefeito lhe entregou pessoalmente uma bela medalha de prata.
Há uma grande satisfação em estudar e merecer o premio, mas aquela de ser útil a mãe doente é a maior de todas!

Texto original: Una donnina, extraído da obra de Ida Baccini – Lezioni e Racconti per Bambini – 1882

Tradução: Beatriz Pagliaro

N.T.: Texto não revisado.

 

 

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